domingo, abril 28, 2024

Humprey Bogart do Rossio

 


Era bonito passar pelo átrio do metro e admirar aquele desenho aquele desenho a giz, no piso. Só os menos sensíveis ou os muito apressados não diminuíam a marcha para apreciar aquele olhar enigmático do actor-personagem que uma criança em gestos fortes, todas as manhãs, colocava cores que, apesar de vivas, não lhe tiravam o ar soturno que sempre caracterizou aquele que, em tempos, arrebatou tantos corações e influenciou tantos comportamentos. À tarde, o desenho empalidecia pelas pisadas mas, pela manhã, compensava andar um pouco mais para pegar o metro no Rossio e ver a quantas andava o Humphrey que a cada dia parecia mais vivo,mais colorido e até já esboçava um sorriso alegre nada debochado ou cínico daqueles que lhe fizeram a fama. O Humphrey, a criança, a lata e o tilintar das moedas eram o prenúncio refrescante de um bom dia de trabalho. A pausa meio a tantas correrias. Desviei o  meu trajecto durante duas semanas até que houve uma alagação e o Humphrey apagou-se por completo. Ainda passei pelo Rossio algumas vezes na esperança de o ver novamente. Nada. Um dia, deparei com a criança sentada na calçada rabiscando o chão com um caco de tijolo, sem a lata e entristecida. Indaguei-lhe: “Então, e o Humphrey?!” “Pois é, doutor, a estação encheu-se d’água e eu fiquei à nora.” “Por que não retoma o trabalho?” A criança, esfregando a mão sobre os rabiscos, respondeu aborrecida: “O camone que fez já bazou há muito tempo.” Fui pego de surpresa. Fiquei tão indignado que despejei meu descontentamento com uma veemência tão grande e em tão alto tom que logo juntou-se uma roda de curiosos:”Com que então não foste tu quem fez o Humphrey... eu, que falava p’ra todo mundo a teu respeito... e as moedas... não imagina a pipa de massa que deixei na tua lata... e vens me dizer que não foste tu... saíste-me um grande aldrabão, isto, sim...” A criança assustada, com a mão em atitude de defesa, prevendo uma estalada, olha em volta como a procurar uma brecha entre os curiosos e arremata,antes de pisgar-se: “Eh, doutor! E o trabalho de restauro não vale nada, é?”

 

quarta-feira, abril 24, 2024

O LADRÃO DE SONHOS

 

O LADRÃO DE SONHOS

 

Era-lhe dura a vida. Trabalho ainda não faltava. Faltava o dinheiro para vida melhor. Pelo menos, para assentar a cabeça e trabalhar mais, mas naquilo que era de gosto. E, como o de gosto lhe regalava a vida, trabalhava. Trabalhava no que não rendia nem para a renda, mas rendia na esperança de um dia concluir a obra de gosto mesmo que não se lhe rendesse. Bastava-lhe o prazer de acabaram e dizer: é bom, gosto disto! Buscava. Buscava na Natureza, nas histórias, na História, nos contos, poemas e através de fantasias e variações sobre outros temas. Parcerias, não, pois os seus dois trabalhos transformaram-no num solitário – o trabalho de acompanhar que, ainda que escasseasse no mercado devido às novas tecnologias, não lhe faltava graças à sua polivalência que lhe permitia tanto executar um violão em gravação de estúdio, quanto fazer a percussão em uma orquestra de Mambo ou mesmo substituir a tuba na fanfarra do bairro e o trabalho que lhe acompanhava mal terminava o outro., no caminho para o quarto, na solidão da pensão, no café da esquina, a perambular pela cidade, nos campos, nas tournées… sempre a tecer os sons e espaços à procura do que seria a remissão do pecado de tanto trabalhar. Concentração, meditação, embriaguez, laboratório, nenhum mecanismo lhe proporcionava a inspiração para a obra que satisfizesse a sua exigência. E, só a sua, já que nenhum produto era tornado público; Se não é bom para mim, não será para ninguém! pensava nos raros momentos em que a cabeça não estava ocupada pelos sons e silêncios que nem sequer chegavam ao papel.

Um sonho.

Lindo tema. Não precisava nem desenvolvê-lo. Estava lá. Todo. Sentiu vontade de passá-lo para a pauta mas, podia esperar. Havia que desfrutar. A felicidade. A missão cumprida. Há vagar. Seria só dele. Por algum tempo só ele ouviria aquela prenda abençoada por Morfeu.

Mais uma esquina da vida.

O tema chegava-lhe agora pelos ouvidos. Apressou-se na direcção da loja de discos de onde vinha os acordes que nunca trauteara ou assobiara. Como? Uma peta do inconsciente. Poderia ser algo que já ouvira em outros tempos. Ainda bem que não fui registá-la. Que vexame! Queria saber quem fizera coisa tão bela. “Foi o Maestro” – disse o vendedor da loja demonstrando uma surpresa simpática e completou com simpatia: “Pois não é que o Maestro agora está a lançar-se como compositor. É a sua primeira obra de autoria.”

O Maestro!

A fama do regente era tal que o artigo e a função bastavam-lhe como epíteto. O Maestro. Não conhecia o maestro pessoalmente tampouco tivera ocasião de trabalhar sob a batuta deste. Muito conhecia de sua vida e de seus feitos como tantas pessoas pois a fama do maestro era invulgar e disputava a média com grandes vedetas da música pop e do desporto.

Intriga.

Ou ele e o maestro ”beberam” da mesma fonte ou tratava-se de um caso de grande coincidência o que, legalmente, nunca serviria de argumento – a criação musical é livre, a Lei, não.

Foi só um sonho.

A vida continuava. Dura. Cada vez mais.

Sonho.

Completo. Só melodia, harmonia, ritmo, nenhuma imagem, três andamentos perfeitos e o título: Soneto Sinfónico. Não. Não poderia ser uma brincadeira. Lembrar-se-ia se já tivesse escutado algo tão arrojado. Era seu método de trabalho. Dormir. Sonhar. Duas coincidências? Impossível! “Essa é minha…” – pensou, brincalhão – “peguei primeiro.” E, com toda presteza, colocou-a na pauta. “Meu passarinho!” Mas, seria isso uma inspiração? – já a caminho da sociedade que protege os direitos dos autores – Mas, também não é assim, mesmo quando estamos acordados? Ela vem-nos quando menos esperamos. Não era altura para conflitos interiores. “é minha e pronto!” “Que coincidência.” – disse o responsável pelo registo – “Não faz muito tempo, registei uma partitura com esse mesmo título ou parecido. Deixe cá ver. É, é o mesmo, Soneto Sinfónico. Mais uma do Maestro. Foi… há precisamente uma semana.” E, com todo o tacto diplomático exigido em tais circunstâncias, acrescentou – “Mude o título e já está!” “Deixe estar, obrigado.” Saiu da secção com a certeza de que se quisesse obter o registo teria que alterar toda a estrutura para além do título. E a certeza confirmou-se. Lá estava nas rádios, tevês e lojas: todas as notas, todos os compassos… idênticos… as pausas. Era a coqueluche do momento. O Soneto Sinfónico. O seu passarinho.

Os sonhos tornaram-se mais constantes. Já se dava ao luxo de escolher. O trabalho assim era fácil, sem sacrifícios. Bastava fechar os olhos. Um cochilo, uma suite… Árdua era a tarefa de transição. Sabia que tinha que ser rápido. Dias e dias a escrever negligenciando o outro trabalho, o das rendas. E as poucas economias esvaziavam-se. Já estava acostumado a conviver com a pobreza, mas a perspectiva de chegar às raias da miséria, assustava-o. Ainda assim, não parava. Era a sua grande oportunidade. Os últimos compassos foram transcritos já ao balcão do registo. Ao traçar a barra dupla, pergunta, quase que sem querer, pelo maestro. “Tem novidades?” “Esse não para” – disse o funcionário pegando um maço de folhas – “hoje mesmo, pela manhã, trouxe esta colectânea. Veja.” Bastou uma vista d’olhos sobre os sete primeiros compassos para saber que o seu registo seria adiado, ainda uma vez.

O maestro era mais rápido. Tinha modernos programas de computador e uma grande equipa a qual, mal acordava, punha em acção. Em pouco tempo O Maestro estava com novo álbum na praça. Com tudo. Até os sonhos que ele desprezara.

De fome ainda não padecia, mas já perdera o quarto da pensão. Porém o catre de agora não impedira os sonhos. O único prazer. Dormir era o seu único trabalho. Não transcrevia mais. Para quê? Qualquer coisa que agora lançasse teria sempre a marca do outro. O estilo inconfundível do Maestro. Estava acabado. Ele estava acabado, mas queria ver o outro de perto. Olhos nos olhos e definir o que sentia. Parecia ódio e era a única coisa que o movia. A oportunidade surgiu numa apresentação pública da obra do Maestro, pela Orquestra Metropolitana, regida pelo próprio. Antes da conferência de imprensa, cruzaram-se. o elogio que lhe saiu da boca vinha-lhe da alma. Pejava sinceridade. “Bela obra! Bravo Maestro!” O obrigado foi o mesmo dirigido a qualquer desconhecido. Realmente o maestro não o conhecia. Às perguntas de praxe de como era o método de trabalho, de onde vinha a inspiração, a que atribuía o gosto do grande público por sua obra e essas coisas, a resposta, que revelava uma modéstia desmedida: “Eu não faço nada. Eu roubo. Roubo os sonhos. Assim como um pintor coloca o inconsciente colectivo na tela, eu coloco-os na pauta. Sou um ladrão de sonhos.” “Filho da puta! Ainda confessa.” Era ódio, tinha a certeza. O ódio solitário.

O catre e já a fome.

O sonho dos sonhos. O estilo era o mesmo, mas a grandiosidade superava tudo que já havia sonhado. Entra na grande vivenda do maestro com todas as facilidades que os sonhos concedem. Para à porta do quarto onde o maestro dormia vestido de fraque, embriagado de mais uma fausta noitada. O maestro olha-o como se já o conhecesse de muito. “Foi a coisa mais linda que tu já fizeste.” E acrescenta, com uma intimidade debochada. “Pena que não possas representá-la” “Posso sim. Posso fazer dela uma elegia. Uma ode. Vou chamá-la” – com as mãos no pescoço do outro – “Requiém O Maestro” – aperta – “a minha homenagem post-mortem ao Ladrão de Sonhos.” – aperta até aplacar todo o ódio. Acorda. Cata algumas moedas atiradas pelos noctívagos e dirige-se ao café, um pouco frustrado por ter sido só um sonho, mas feliz por ter sonhado. O rádio do café anunciava em edição extraordinária: “Morte misteriosa leva-nos o Ladrão de Sonhos…” A notícia entristeceu a quase todos.

 

Esta história eu sonhei. Por isso, fico meio sem jeito de assiná-la, pois não sei até que ponto podemo-nos assumir como autor intelectual de uma obra na qual não utilizamos o intelecto. Mas, por via das dúvidas, vou creditar a mim a sua autoria, assiná-la e registá-la pois… nunca se sabe…

 

A todos que pugnam pelos direitos dos autores.

Jorge Carlos

           



Este conto foi para o papel em Lisboa, no ano de 1999. A exemplo de Dona Peta e com o incentivo de José Saramago peguei gosto pela escrita e desatei a contar histórias que foram colocadas em livro em 2002. 


sexta-feira, abril 05, 2024

Luz nas trevas

Na minha primeira exposição individual (Viva Café), no Banacre, no ano de 1983, dois quadros foram adquiridos pela Secretaria de Indústria e Comércio do Estado do Acre. O secretário Adalberto Aragão escolheu justo os dois que eu mais gostava, o “Homem de Fumaça” e o “Lux in Tenebris”, dos quais eu não queria abrir mão e só aceitei a venda por se tratar de um órgão público e assim, quando eu quisesse mostrá-los, estariam sempre disponíveis. Quando fui apresentá-los à minha mãe que nos visitava vindo de longe, na parede só estava o “Homem de Fumaça”, o “Lux in Tenebris” tinha ido para as trevas. Procurei alguma luz e descobri que o Aragão quando se despediu da Secretaria para assumir a Prefeitura de Rio Branco o havia presenteado ao seu motorista, por quem, segundo o próprio funcionário, ele tinha grande estima. A contragosto, o motorista entregou-me o quadro. Sem saber o que fazer, fui ficando com ele e procurando exibi-lo sempre que possível. Nomeadamente, na coletiva de inauguração da AAPA (Associação dos Artistas Plásticos do Acre) e nas coletivas para a Noite Acreana no Circo Voador, no Rio de Janeiro e da inauguração do Parque Chico Mendes, em São Paulo. Acabei por levar a obra para Portugal, onde morei por vinte anos. Nas andanças, a cartolina sobre a qual está a pintura feita com café se danificou, mas nada que impedisse que fosse resgatada por minha filha Maiara, que lhe proporcionou uma moldura para proteção.

Eliana e sua irmã Isabel, não sem um tom de pilhéria, alertaram-me que o quadro não mais me pertence e que o certo seria devolvê-lo ao Estado. Pronto para a devolução.

                       

quinta-feira, fevereiro 08, 2024

SBAT, UM PATRIMÔNIO CARINHO

No ano de 1978, montei a peça teatral Pluft, O Fantasminha. Foi meu primeiro (e um dos poucos) que tinha como objetivo ganhar dinheiro. O Acre, àquela altura, era muito distante... Mas havia a consciência e o conhecimento de que, geralmente, dez por cento da bilheteria caberia a quem escreveu a obra, no caso, Maria Clara Machado. Parti para o Rio de Janeiro. Foram quinze dias de atoleiro em atoleiro na fatídica BR 364. Entrei no Teatro Tablado todo enlameado, o que fez a autora arregalar os olhos junto com um sorriso piedoso. Desenrolei o saco plástico sujo só por fora e entreguei a ela o cartaz que o Grupo Sacy, do Acre havia preparado com toda atenção. Ela adorou saber que tão longe na Amazônia cuidaram tão bem de um filho seu, dos mais queridos. A surpresa maior foi quando desenrolei o canudo de plástico menor com o Direito Autoral. Depois de ouvir a aventura que vivi para chegar ao Tablado, ela disse que não receberia. Abriu mão sem protocolos e orientou-me para que procurasse a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais para que outra dessa não acontecesse.

Resumo: Fiquei sendo o representante da SBAT para o Estado do Acre, onde o fazer teatral, predominantemente amador, não permitia muitas arrecadações, mas se beneficiava com outros atributos da Sociedade, como a procura de textos, liberação... e a Revista, que chegava regularmente sempre com artigos interessantes.

De representante passei a sócio, pois inventei de escrever também. Se paguei duas anuidades foi muito. Mas as peças que pus em guarda da Sociedade, lá ficaram guardadas e poderei resgatar até a que já havia dado por perdida.

Tantas voltas deu o Capitalismo e as estradas, que a SBAT e eu andamos mal das pernas. Ela precisando da anuidade dos sócios e eu precisando de 200 reais para pagar a minha anuidade. Sim, porque depois de todo aperreio que a Sociedade fundada por Chiquinha Gonzaga e outros intrépidos quixotes passou para resistir desde 1917 e ainda assim guarda as minhas coisas... É o mínimo que posso fazer. E seria bom que todos os sócios mantivessem em dia as anuidades. Mesmo que com todas essas novidades midiáticas (a SBAT também está se modernizando) não veja necessidade. É uma questão de carinho histórico.

Espero que pelo menos a maioria possa abrir mão de 200 reais anuais. Eu não os tenho consolidados, são muito esporádicos (ainda não vi a cara do Lobo Guará), mas, em conversa com a Eliana, tive a ideia de desenhar uma figura da Casa a cada ano e colocar à venda. O valor: o da anuidade (que por ora é 200).

O primeiro é este, a Chiquinha Gonzaga. (Atenção, não é a Regina Duarte. A atriz é que ficou muito parecida.)

Aceito sugestão para quem possa ser a figura retratada no próximo ano.



sexta-feira, janeiro 26, 2024

Meu primeiro atestado de pobreza

Hoje, com setenta e um anos de idade, fui fazer o Cadastro Único com a finalidade de obter  a Carteira da Pessoa Idosa e poder auferir os benefícios de passagens gratuitas ou com desconto. Este é o meu terceiro atestado de pobreza ainda que tenha o nome de CadÚnico. O segundo também foi para obter passe livre nos ônibus, desde que em dias úteis e vestindo o uniforme da escola. Mas quero falar da primeira vez que enfrentamos a burocracia e até um certo vexame, não de minha parte, pois nunca me preocupou o fato de ser pobre ou suburbano.

Foi em 1963. Correu uma notícia de que o Walt Disney havia destinado uma enorme quantia em dinheiro para ser dividida entre a estudantada da Escola Pública. O que, segundo um jornal, daria cem cruzeiros para cada estudante. Cem cruzeiros!  Cr$ 100,00 (assim se escrevia numericamente). Precisava ver a alegria com que meu pai soube da nova. Para ter uma ideia, os cenzinhos davam para comprar dois enxovais completos (ia poder lavar o uniforme mais regularmente), incluindo sapatos de verdade (ia também me livrar do “Tô na merda”, feito em borracha inteiriça, imitando os de couro e que deixava um chulé terrível)... e ainda sobrava um pouco para ajudar a família em outras coisitas. Nunca se soube direito o porquê dessa doação. Alguns jornalistas atribuíam ao fato do artista-empresário ser muito grato ao Brasil, de onde ele absorveu vários aspectos culturais que contribuíram para a sua obra. Outros diziam que a ação fazia parte da Aliança Para o Progresso, no tal acordo MEC-USAID, que distribuía um leite em pó que grudava no céu da boca e o bedel descobria logo que a gente tinha agido como camundongos na despensa da escola. Também se aventava que o milionário havia feito um sorteio entre os (uns dizem todos, outros dizem que só os “subdesenvolvidos”) países do mundo. Para nós, não importava o motivo. Por pelo menos um ano estaríamos letivamente ricos.

Mas, aí, veio um complemento da notícia. A partilha da fortuna seria apenas entre os estudantes pobres da Rede Pública de Ensino. Foi aquela correria dos pais, os mais beneficiados com a doação. Nem gosto de lembrar as chatices. Comprovar riqueza é bem mais simples. Papelada na mão, demos entrada. Agora, é só aguardar. Esperar. Esperança!

No ano a seguir, houve um Golpe de Estado que instituiu uma Ditadura Militar. Os mais velhos diziam que os que estavam no poder agora era gente séria e que iriam moralizar a máquina pública e saldar todas as pendências para com a sociedade. Principalmente na questão de dinheiro, já que um dos objetivos principais da tomada de poder era acabar com a corrupção, coisa que o civil Jânio Quadros não conseguiu varrer como prometido. Nos meus doze anos, não entendia nada disso, mas ficava alegre sabendo da alegria que teria meu velho quando a tal máquina pública fosse saneada, como diziam... e já me via de uniforme azul e branco, branquinho de doer nos olhos.

Esperamos. 65, grande festa para os quatrocentos anos da sofrida Rio de Janeiro. Será que os nossos cenzinhos fizeram parte da malograda chuva de prata que programaram para o aniversário da cidade? Via-se que dinheiro não faltava. Tudo que se fazia era em grande. O MEC-USAID foi escancaradamente assumido e mudou até o número de anos que se deveria ficar na escola. Mas eu só queria os cem, que segundo meu pai, já não valeria tanto. Que desse pelo menos pros sapatos! Um coleguinha disse que nunca soube de que uma pessoa deixasse uma herança estando viva. Então vamos torcer pra que o Disney morra? E os desenhos animados? No outro ano, o Walt Disney morreu. Agora vai! É só esperar mais um pouco.

Essas coisas demoram. É dinheiro que vem do exterior. Muita burocracia. Nas notícias sobre a morte do desenhista não se falava nada a respeito. Ih, isso é coisa para uns dois anos. Imagina! Crianças do Brasil inteiro... Dois anos. 68. Agora vai! E viu-se onde fomos parar.

Será que agora se esse dinheiro saísse e com todos os juros e correções monetárias... talvez, eu não precisasse tirar meu cartão de idoso.



quarta-feira, março 29, 2023

O presente e seus valores

- ... um pra mim, um pra União, um pra mim; um pra mim, um pra União, um pra mim...

- Presidente, o livro?

- Espera lá! Um pra mim, um pra União, um pra mim. Esta caixa levo comigo. Esta outra mando pra casa do amigo. E vou tentar mais uma vez pegar a que ficou na alfândega. Um pra mim, um Pra União, um pra mim...

- Mas, Presidente, o livro?

- Aquele livro? Joguei fora. Um livro velho daquele, seria até sacanagem deixar aquilo pra União. Presente de Roma. Só pode ter sido brincadeira. Presente bom era das arábias. Veja essas joias. Isto sim. Fuzil, pistola, relógio de diamantes... manda esse pro piloto também.

- Mas aquele livro, Presidente...

- Pô! Um livro velho, podre, que não dava nem pra passar as páginas direito que se rasgava todo. Botei no lixo. Também não teve registro. Eu não ia ficar com aquela porcaria.

- Mas Presidente, aquilo era uma Bíblia de Guttemberg. Vale muito.

- Mas, como é que eu ia adivinhar...  um livro tão velho... até dei uma olhada...  com as páginas todas rabiscadas.

- Eram as anotações de Lutero!!!!



quarta-feira, março 15, 2023

Quando Flicts virou Plucts

Andava por aí com um grande livro na pequena bagagem. Uma réplica em tamanho gigante do livro Flicts, do Ziraldo, que havia posto em música em 1989 a pedido de Ozi Cordeiro para a sua montagem no Acre da peça de Aderbal Júnior que se trata de uma adaptação do poema. Sempre que calhava, fazia uma improvisação auxiliado por alguém da audiência com disposição para mudar as páginas enquanto eu contava tocando e cantando a história da cor provinciana que não achava espaço na cidade. Para uma apresentação na Bastide, em Morières-les-Avignon, a organizadora do sarau, Monique Jullien fez a tradução e teve a feliz  ideia de alterar o nome do Flicts, que lembra “policial” para Plucts que remete a plouc “campônio, caipira”. Contei isso para o Ziraldo e ele adorou. Afinal, Flicts é mesmo autobiográfico.

Existem várias canções com este poema e as mais conhecidas são as que Sérgio Ricardo fez para a primeira montagem da peça teatral em 1972 e, hoje, estão gravadas em disco.

Quem quiser pode baixar o poema com a partitura. Não precisa nem passar um PIX, é só clicar AQUI.



quarta-feira, janeiro 18, 2023

Uma rua com o seu dia


Para podermos afirmar isto levamos dez anos e três dias.

Desde que tivemos a ideia que alguma Folhinha Poética fosse ilustrada com placas de logradouros cujos nomes fossem datas históricas, por onde passávamos íamos à cata e também pedíamos que nos fossem enviadas imagens. Ao completar dez anos, havíamos coletado sessenta.  Descobrimos o Google com o seu recurso “street view”... Em três dias conseguimos as 366.

Com medo de não conseguirmos o intento, colhemos as primeiras que apareciam pela frente, daí a baixa qualidade de algumas. Entretanto, como será para 2026, teremos tempo para fazermos as devidas trocas. Portanto, continuamos a aceitar novas imagens. Agradecemos de coração.

Por ora, divirtam-se com as que já cá cantam.














 

sexta-feira, janeiro 13, 2023

O Horror Exposto

Não vou dizer o nome do santo, mas também não foi milagre, apenas uma questão de consciência. Um grupo organizado de pessoas que lutavam contra o regime através da guerrilha urbana, também chamados de terroristas por quem ignora que terrorista maior é o Estado...  A ação seria roubar uma pintura de um museu. Já estava tudo certo: o comprador estrangeiro pronto a pagar uma fortuna, o acesso à sala sem que se precisasse usar de violência, a rota de fuga, tudo muito fácil e sem grandes riscos. Aconteceu que quando a tela já estava em mãos, o chefe da operação disse, autoritariamente: “Ponham de volta no lugar...” Calados, obedeceram, mesmo sem perceber bem o que se passava na cabeça do camarada, que completou “Isso pertence ao povo. Vamos procurar outra coisa, um banco talvez.” E a tela voltou ao seu lugar perfeitamente intacta.


(Tela de Di Cavalcante danificada pelos horríveis manifestantes do Oito de Janeiro)

quarta-feira, agosto 31, 2022

A PLACA

 


Depois que duas personagens relevantes dessa história morreram podemos contá-la. E a contamos eu e o Correinha, duas outras personagens também relevantes, mas ainda vivas.

Corria os tempos da grande inflação. Junto com a atriz Mira Fragoso andava às voltas para arranjar dinheiro para levarmos a peça de teatro Frei Molambo a Portugal. Ela e eu nos empenhávamos em várias tarefas na tentativa de ser mais rápido que a inflação. Quando se conseguia o dinheiro das duas passagens, já não dava para uma. Para se ter uma ideia de como era no tempo em que pela manhã o quilo do açúcar tinha um preço e à tarde tinha outro: Vendi um quadro num salão de artes plásticas, em Belém, que foi pago com um cheque de banco estrangeiro e quando consegui descontá-lo não cobriu nem a despesa que tive com uma moldura simples. Ainda tive prejuízo com o envio.

Correinha para fazer um agrado ao doutor Parigot, por quem tinha grande estima, ofereceu-lhe uma prancha de boa madeira para ser o indicativo de suas terras.  Pediu-me que esculpisse uma placa com o nome da fazenda do renomado médico, que com certeza pagaria um bom preço, apesar de eu não saber calcular o valor a pedir por um serviço que fugia um pouco da minha alçada. Comprei os artefatos necessários e pus-me à luta que era assistida diuturnamente pelo também doutor Andreoli, este, ortodontista, que morava no mesmo terreno onde nos fundos morávamos Pimentinha, João, Mira e eu. Entre uma e outra casa, os cavacos se espalhavam e a grande prancha ia deixando aparecer o nome Flor de Lis. Apareceu. Lindo. Envernizado e com todos os cuidados levado ao feliz homenageado que, devido ao avançado da idade, já havia perdido a noção do dinheiro ou do tempo em que vivia e mandou que fizesse um cheque de tal valor que não pagava nem o verniz e as lixas. O pobre do Correinha não sabia onde enfiar a cara. Chega deu pena do rapaz. Pediu-me desculpas sem saber o que dizer e passou evitar se encontrar comigo ou com Mira que, se tivéssemos abiscoitado pelo menos oitocentos cruzados novos a mais já teríamos as passagens na mão.

Ainda estava catando cavacos do terreiro quando Andreoli aparece à porta dos fundos e estala um cheque chamando a minha atenção. Mil cruzados novos novíssimos. De quem? Do doutor Parigot. Foi assim: O obstetra procurou o ortodontista. Segundo o dentista, chorava feito criança. Os dentes estava amolecendo e o médico não queria que acontecesse como com o seu paizinho cujos dentes caíram. Existe uma questão de ética em que um colega evita de cobrar serviços prestados a outro. Mas a indignação por me verem tantos dias de labuta perdidos fez com que o amigo Andreoli inventasse a desculpa de que o montante seria para o material que deveria importar. Ufa!

Como dizer isso para o aperreado Correinha. A desculpa foi que a Mira jogou no bicho o número do cheque do doutor Parigot e acertou na cabeça. Correinha ficou muito contente. E todos ficamos contentes.

A foto da placa, que ainda está viva, é do Alessandro Gondim.

quarta-feira, julho 21, 2021

Sakurarana ou A Lição da Yvonete

A observação tinha tudo para ser uma grande gafe, um imenso fora, um verdadeiro despropósito. Para mim não foi nada disso e até entendi manifestamente o sentido da frase inconveniente, o que me fez ganhar uns pontos com a madrasta distraída e perigosamente sincera. Conto como foi:

Fomos visitar alguém que não me lembro quem. Já à chegada, na varanda, as flores que denotavam cuidados e carinhos especiais chamaram a atenção da Yvonete que juntou aos cumprimentos o elogio a uma planta em especial, se não me falha a memória, um antúrio. “Até parece artificial...” disse ela, e concluiu com toda a sinceridade “Daquelas de plástico.”.

Não sendo eu o jardineiro responsável, nem a dona da planta, facilmente conjecturei. As plantas artificiais não tem nenhuma falha, o que lhes dá uma aparência falsamente real. Pensava eu que se fosse o fabricante as faria com alguns defeitos.

Hoje, algumas já são feitas com algumas imperfeições que as tornam mais “naturais”.  E ainda hoje, Eliana e eu, embevecidos que estávamos com a florada das cerejeiras  na serra, sempre vistas ao longe, na mata ou nos quintais, corremos para tirar fotos junto a uma muito vistosa na calçada defronte um restaurante. Muitas tentativas a procura de melhor ângulo no qual o sol destacasse os róseos tons das delicadas pétalas. Um garçom se prontificou em auxiliar a quem, imaginava ele, se tratasse de dois abobados turistas. O polido garçom fez o clique que rapidamente iria para as redes sociais se não fosse eu desconfiar de um sorriso monalísico deixado escapar por alguém. Lembrei logo da Yvonete e fui conferir... Eliana, disse em surdina, não mostra pra ninguém, não. É de plástico.



sexta-feira, janeiro 15, 2021

CARLOS GOMES COCHILOU

 

Paaan pan pararammmmm

Pan pararammm pan pan paaan

Pan pan pan pan pan pam pannnn

Pan pammm

 

Enquanto o Carlos Gomes

Escrevia Il Guarani

Peri, muito maroto

Se alencarva com a Ceci

Saíam escondidos

Fazer não sei o quê

Lá no meio da mata

Pra ninguém saber

domingo, novembro 29, 2020

A viagem maior

Cara Filomena Cabral, deite fora, ou antes, pendure no cabide o xaile da preocupação que lhe assentou sobre os ombros ao saber da tresloucada ideia que Eliana e eu tivemos de atravessar o Brasil de Leste a Oeste, em plena pandemia, montados em um carocha. O fado mudou ao primeiro empecilho para a aquisição da montaria que até nome já tinha. O fusquinha seria chamado de Demoseille, por ser emplacado em Santos Dumont, cidade mineira  onde viveu sempre acarinhado pela Marta, que de última hora não pode fechar o negócio. Foi coisa providencial. Assim, como se diz por cá, caiu a ficha! Vamos ficar recolhidos nas montanhas e deixar as estradas para as pessoas, verdadeiras heroínas, que não podem manter o isolamento, senão o mundo para.

Quanto a essa febre de viajar que nos acometeu, dissipou-se rapidamente, pois o imbróglio que se deu na negociação já suscitou dois contos e um poema.

E não há viagem maior que a literatura.

Ouvi dizer que o severo pai de Júlio Verne não o deixava ir para sítio algum. O rapaz trancava-se no sótão e de lá nos levou para o centro da terra, para o fundo do mar; com ele, demos a volta ao mundo e fomos até para a Lua. Ao se emancipar, ele viajou, desta feita, sozinho.

Eliana e eu estamos mais leves, conformadas e compensadas, sossegamos o bicho carpinteiro. E, ora pois, uma cidade com um nome desse deve ser boa para se negociar é avião.

P. S.: Não só para a Filomena, mas para tranquilidade dos parentes e amigos que achavam que estávamos cobertos de desgostos para fazer uma coisa dessas.

Beijinhos.



terça-feira, outubro 06, 2020

Deixa eu te Contar!

DEIXA EU TE CONTAR! Assim foi como foi de quando eu quis fazer a dedicatória de um livro de minha autoria ao Zé Pedro. E não consegui. “Mas porém contudo todavia” e entretanto, por se tratar de uma curiosidade literária, não contarei só para o amigo Zé Pedro e sim para quem quiser ouvir. É daqueles casos em que o criador não tem controle sobre a criação. Como é sabido, tudo pode acontecer num romance durante a sua feitura. A ideia surgiu depois da festa de lançamento do ‘Was Bach Brazilian? O Puto do Adufe ou o Inventor do Baião’, romance idealizado por Mucio Sa e posto no papel por mim, com a ajuda de praticamente todos os frequentadores do Tejo bar. Consta que fora a maior festa já vista em Lisboa com tal finalidade. A Fnac, organizadora do evento, deu preferência ao Bar do Teatro A Barraca, pois, se para o anúncio do Prémio Fnac/Teorema 2004, o auditório da loja ficou pequeno, imagina-se para o lançamento do livro. Que coisa mais linda! O Cristiano Holtz, ao cravo alugado pela Livraria, executava um Bach atrás de outro e como enquanto se ouvia Bach, não se podia entrar, ele foi obrigado a parar antes de terminar o repertório escolhido, já que o átrio e as escadas do teatro estavam abarrotados e até houve gente que desmaiou. Depois do cravo deu-se na ferradura. Quem quisesse dar uma canja era só colocar um chapéu de cangaceiro e executar um baião, de preferência, ou outro ritmo. Robson, um carpinteiro muito famoso em Lisboa, que é capixaba, mas só andava de alpercatas e chapéu de vaqueiro nordestino emprestou o chapéu. Mucio, o parceiro no livro e que também é músico dedilhou ao violão o Trenzinho Caipira, do Villa-Lobos, eu comecei a cantarolar e a cantora e pintora Mira, deu reforço espalhando a voz maviosa e maravilhosamente afinada dela por sobre e adentro a imensa e silenciosa plateia. O artista plástico António Ferraz puxou-me pela manga e disse lacrimejante: “Este é o dia mais feliz da minha vida.” Sua mulher Cidália Ferraz, sorria embevecida e não precisou dizer nada, abraçodada com o seu velhinho. Mira, vestida de baiana, vendia acarajé. Pensou-se que se tratava de encenação, mas não. Vendia mesmo. Além de cantora e pintora a Mira Fragoso tem outros dons. Vendia os famosos bolinhos da Bahia e ainda tinha como cunhã a cantora Glória Lopo, esta, baiana de verdade. Sérgio, o arrimo das noites pachorrentas do Tejo bar, começou a vender os livros e não deu para quem quis. Carlos Veiga até pensou em desfalcar o Tejo bar levando a prata da casa para vender os livros da Teorema. Claro que era brincadeira. E nem tinha cabimento. Onde já se viu! (Três anos mais tarde a Teorema seria açambarcada pela gigante Leya) E o Sérgio teria ficado esse tempo todo longe dos copos!? E do Tejo, que lhe salvara a vida, como ele próprio dizia! Às tantas, o Changuito, quem cuidava do espaço, pediu arreglo, fechou a casa e a festa se espalhou pelos becos e vielas de Alfama para terminar no Tejo bar, que se não salvou a minha vida também, deu-me imenso gozo e até hoje o trago comigo. Pela manhã, ainda no rescaldo da fuzarca, tomava o pequeno almoço com a escritora Marie Alix de Saint-Roman, que viajara de Sevilha a propósito, também ela personagem homenageada no romance. Foi aí que caiu a ficha. Uma festa linda daquela e não estava lá o meu amigo Zé Pedro, que estaria também aqui agora com a gente a tomar esse galão com torradas. Depois que Orfeu tangeu a lira, fui dormir chateado comigo: Puxa, nem mesmo uma personagem para lembrar quem era meu amigo desde criança ele e que nos deu um leito quando por cá, Mira e eu, chegamos na qualidade de imigrantes ilegais. Quem começou comigo e a Mira essa aventura chamada Tejo bar, organizando uma festa ainda maior que esta de ontem. Mas vocês não estão brigados? E daí! Tem mais gente com quem estou brigado e mesmo assim entrou no livro. Até o meu senhorio, que nos cobra o leito, entrou. Deixa estar! O próximo romance dedicarei a ele. Ao Zé, nosso salvador. Um outro salvador, o Paulo Tavares, diretor da Pousada de Juventude de Picoas, que nos deu boa guarida, ganhou um samba em agradecimento. O Zé vai ganhar um romance.

O livro foi, dos meus, o mais vendido por causa do prémio e a flashada da Fnac; e foi o menos lido por causa das complicações literárias. Reclamavam. E eu dizia Quer leitura fácil vai ler Paulo Coelho. Perguntava Leu? Só a parte que eu entro, diziam. Não tive pachorra! Muito cacete. Bem verdade que vivíamos numa época em que tudo era muito apressado, muito lotado, muito corrido. Não era como hoje que as pessoas tem todo o tempo e o espaço do mundo até mesmo para se entreter com a leitura de Guimarães Rosa. Eu entendo os meus leitores, ou meio leitores, afinal eu também ando apanhando com o Ulisses, do James Joyce. Três vezes comecei e três vezes não passei da página cem, até que um joiciano me disse que aquilo pode ser lido aleatoriamente. Pois para os meus quase inteiros leitores prometo uma próxima mais acessível. Taí, farei um romance pimba (no Brasil, brega), se não por cafonice, por simplicidade. E este será dedicado ao Zé. Alguém diria É uma maneira de se fazer as pazes. Sei lá! Pode ser! Faltava a ideia. O tema.

Luiz Morgadinho, artista-plástico, colega da Rua Augusta e das feiras de artesanato, onde vendíamos nossos desenhos (e já amigo) contou-me uma história do tempo em que ele era crooner da banda punk Bastardos do Cardeal. Conheceu um cantor que participava do movimento punk de Coimbra que tinha uma voz descomunal. Um punkeiro de primeira, mas, quando estava na vida social fora da margem, não conhecia ninguém. E também era difícil reconhecê-lo em outros trajes e penteado. O jovem era filho do embaixador mexicano e não queria problemas com o pai. Na bucha, eu disse Vamos escrever isto. O Morgadinho topou. Faríamos as devidas mudanças para não se identificar a personagem. Passou a ser o Gastão, filho de um embaixador da Venezuela, país escolhido, não só pela relação migratória com Portugal, mas também por causa da Arminda, uma amiga comum, que poderia nos dar as dicas da sua terra de nascimento. Ficou assente que seria o mais pimba possível. Morgadinho dedicaria de sua parte a quem bem entendesse e eu, já acertado, dedicaria ao Zé. O Zé Pedro.

Muita discussão, muita conversa... Lá por tantas feitas surgiu um Zé, protagonista, atirando o Gastão para personagem central. Um Zezinho que nada tinha a ver com o nosso Zé. Um Zezinho que poderia ser Juquinha, Ruizinho... mas calhou Zezínho.

Mais. Tanta conversa, tanta pimbalhada, que até os autores escritores se esvaneceram. Apareceu uma personagem para se assumir como alguém que pudesse juntar toda aquela parafernália e escrever uma história, de seu nome, Esteves, do Morgadinho e Oliveira, de minha parte. Por via do enredo vimo-nos forçados a fazer a dedicatória à tal personagem no livro ‘Punk, Rock & Cia. ou O Grande Gastão - Um Romance Pimba por Esteves Oliveira’. Ao Zezinho.

O amigo Zé fica para a próxima, ainda que já tenhamos feito as pazes.






quinta-feira, setembro 10, 2020

Eus e Saramago

  


Quem conhece pelo menos um pouco o escritor José Saramago, fica surpreso com a forma carinhosa com que ele me tratava. E eu fazia questão de mostrar à malta do Tejo bar os faxes e emails e falar dos  telefonemas que dele recebia, alguns mesmo de antes de eu trabalhar no cultíssimo bar de Alfama. As pessoas não entendiam tanta simpatia por parte de quem era tido como avesso aos sorrisos e tapinhas nas costas. Eu tive a sorte de cair nas graças do escritor que só me conhecia através das cartas que lhe enviava, mas ainda assim respondia atenciosamente, o que muito me incentivava a continuar na escrita e ir mais além dos pequenos textos que enviei para a sua apreciação. Tal foi o incentivo que cheguei a dedicar a ele o meu último romance editado em Portugal.

Entretanto, havia um outro eu que ele conhecia bem e por quem tinha verdadeira ojeriza e de quem, se não fosse por ser quem é, eu diria que fugia como o Diabo foge da cruz.

Vou contar como esse relacionamento bipolar se deu.

Junto com os artistas-plásticos Yves Robles e Luiz Morgadinho, participava da Feira de Frutos Secos e Passados de Torres Novas quando soube que o Nobel de Literatura tinha sido atribuído a Saramago. Que festa fizemos! Que choradeira! Risos e hurras pelo golo da vitória no último minuto do prolongamento que tanto se estendia desde que o Prémio fora instituído, vingando Vergílio Ferreira, Jorge Amado... e tantos outros de outros países, que a embriaguez álacre do momento não deixava lembrar, mas que bastava esses dois para mostrar o tamanho da injustiça para com a língua portuguesa.

Eu que raramente lido com as cores, deixei o café de lado e procurei retratar o nosso herói com as cores da bandeira. Imaginei-o vestido de campino, montando um alazão, com uma caneta dourada no bolso do jaleco e um sorrisinho de canto de boca. E não é que o escritor nasceu em uma terra que é conhecida por ser a região dos campinos! Fiquei a saber depois de pronto o desenho. Chamei ao quadro de “O Homem da Azinhaga”.

Aconteceu de eu estar querendo publicar o livro “Dona Peta – Conto Minha Vida” e o encarregado da edição pediu-me a pintura como parte do pagamento, mas tirei uma fotografia para mostrar ao retratado

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Junto enviei as minhas receitas de café, um opúsculo com curiosidades e maneiras de preparo da bebida, com o qual presenteava a quem comprava meus desenhos, e uma crónica de agradecimento pelo direito que me deu de falar a palavra nobel do jeito que quisesse e não “nóbel” como diz a pronuncia americanizada. Afinal, agora também temos um!

Para grande surpresa, recebi um fax, que a Miudinha, a gata da casa, ia estraçalhando enquanto a folha era posta para fora por aquele barulho atrativo também para nós humanos que logo corríamos para ler a mensagem enquanto o mecanismo ia escrevendo. Tratava-se de uma mensagem da senhora Pilar del Rio que, em nome do escritor, agradecia a simpática missiva e dizia que o escritor muito gostou de se ver vestido de campino, que tinha se divertido com meus escritos e que experimentaria minhas receitas com o bom café português que nunca faltava em sua casa em Lanzarote. Imaginem como eu e a Miudinha ficamos! Eu, todo bobo e ela, assustada com dois petelecos no focinho. A partir daí, passei a enviar os meus manuscritos, inclusive, dos romances mais extensos. Um deles, o que escrevi junto com o Morgadinho, Saramago fez questão de comentar. Tratava-se do “Punk, Rock & Cia. ou O Grande Gastão – Um Romance Pimba por Estêves de Oliveira”, um livro que não tinha autores, só personagens, assim como seriam as personagens que deveriam pagar pela confecção dos mil exemplares numerados e assinados. Pois, o escritor pediu que seu colaborador o senhor Acuña (?) enviasse o comentário e que dissesse que ficou muito contente em se ver vizinho de um busto de Agostinho da Silva (como está retratado no romance), acontece que o comentário foi feito na língua espanhola e nós o colocamos assim mesmo no prefácio. Parece que ele não gostou de ver um comentário seu em outra língua em um livro português. Não tenho certeza disso, apenas conjecturei, depois da maneira fria com que o senhor Acuña respondeu ao meu pedido de dinheiro para ajudar na publicação. “Isto, só com o Escritor. Pessoalmente.” Disse secamente, em sua língua mãe, mas percebi tão bem, que não tive coragem de procurar o Escritor, que foi das poucas personagens que não participou da coleta. Puxa, que ingratidão! A gente tinha um prefácio com palavras de Saramago e se aborrece por ele não participar da vaquinha!



Mas isso não abalou a minha admiração por ele, e acredito que a dele por mim (um dos eus), também não modificou, tanto que quando lhe disse que ia me imiscuir em seu Memorial do Convento no meu novo romance, ele disse que eu me sentisse à vontade. Assim o fiz. Fiquei à vontade e ainda ofereci a ele. Só ele e eu sabíamos de quem se tratava o José da Azinhaga na dedicatória “A Dona Peta que me alumiou. A José da Azinhaga que me incentivou.”de As Agruras de Beiraldo Alma, editado pela Teorema, em 2007. Depois da morte do escritor, Eliana e eu levamos um exemplar para a Fundação José Saramago, em Lisboa, no qual eu destaquei a alcunha e escrevi o nome verdadeiro.

  

Agora, voltemos ao entretanto.

Depois de passada a febre da alegria, pensei que alegria maior seria ele recusar o prémio. Dar uma de Sartre! Mas olha pra isto! Eu, que fui para o Funchal atrás dos cinco mil euros do Prémio Edmundo Bettencourt e ao Fundão atrás dos euritos do António Paulouro, torcendo para que um colega não vá a Estocolmo receber um milhão de dólares, pode!? Áa, mas eu não sou Saramago! Ele foi para a Suécia. Pensei, mas não vai vestir casaca. Vestiu. Não se vai curvar ante o Rei. Curvou-se. Ele está guardando para o final apoteótico. Portugal não merece o prémio. Não o impediu de participar no Prémio Literário Europeu com o seu Evangelho? Na última hora vai lembrar de que por isso largou a Terra que tanto amava para ir morar em ilhas distantes e vai dar uma banana para Portugal que continuará só com o controverso nobel do Egas Moniz!  Vai dar um manguito, como bem o faria o Luiz Pacheco! Não deu!

Na minha mesquinhez, fiquei relembrando umas falas do Jorge Amado bem antes de suas conversas com Saramago em que ambos viam com simpatia o tal prémio e até torciam um pelo outro. Pois, o escritor bahiano achava que nunca concorreria ao Nobel, visto que para tão grande honra nunca escolheriam um escritor que dissertava sobre putas e malandros. Ele mesmo dizia que não se sentia à altura e que só aceitaria se pudesse dividí-lo com Vergílio Ferreira, escritor português que ele muito admirava. Pronto. Está explicado. Foi contagiado pelo colega brasileiro. Se calhar até foram pedir uma ajudinha em algum Terreiro de Candomblé, em Salvador.

Será que foi o tanto de zeros à direita do valor pecuniar que fez com que ele aceitasse? Herberto Hélder recusou o Prémio Pessoa e era uma pipa de massa! Certo, com menos zeros, mas que, para a vida singela com que vivia, bem equivalia a um nobel.

Essa minha alma frustrada só viria a ser lavada muito tempo depois, em 2016, através da personagem Daniel Mantovani, do filme “El ciudadano ilustre”, de Gastón Duprat e Mariano Cohn. Mas enquanto isso...


Afinal,  apareceu a primeira oportunidade para manifestar a minha alegria e indignação ao mesmo tempo – como pude ser tão parvo?! foi durante a abertura da feira do Livro de Lisboa, a primeira após o prémio. Eu lá estava em protesto contra a Câmara, que por questões burocráticas me fez perder o atelier que tinha na Mouraria. Sabia que o Presidente da Câmara, o João Soares, lá estaria. Meti-me numa asa de grilo, com um laço vermelho ao pescoço e uma placa de cartão pendurada ao peito com a frase, “Fiquei só com o email e a roupa do corpo”

Ao me aproximar da comitiva camaral deparei-me com Saramago, um pouco aturdido meio aos rapa-pés. Agarrei-lhe a mão, beijei-a e disse “Uum, deixa eu esfregar essa mãozinha de um milhão de dólares”.O pobre homem nem teve reação, tal a surpresa. Escapei-me por entre os bajuladores e fui com o meu fraque e minha placa procurar sensibilizar o João Soares, que me ouviu cortezmente. Não consegui o atelier de volta, mas fiz a “gozação” que tanto queria. Viu que parvoíce! E ainda fiz mais. O Jorge Sampaio quando se tornou Presidente da República, ofereceu um jantar no qual toda a classe artística foi convidada. Eu, enquanto participante da Associação Cultural Teatro de Marionetas A Lanterna Mágica de Lisboa, lá estava e, claro, também estava o artista da escrita, Saramago. Novamente nos encontramos. Eu, dessa vez, de “smooking”, a condizer com a recepção, fui logo reconhecido por ele que tentou esgueirar-se, mas consegui  agarrá-lo pela mão dizendo umas tantas tontas palavras. Mais parvo, impossível! Com o Herman José conversamos sobre a Dona Peta, com o Manoel de Oliveira falamos sobre o João César Monteiro e perdi a oportunidade de trocar ideias sobre tantos bons assuntos, inclusive Dona Peta, que estava em voga na altura, e pior, ainda fui desrespeitoso justamente com alguém que tanta atenção dispensou  às minhas pequenas coisas e a elas respondia com carinho. Parvo e ingrato! Mas haveria um terceiro encontro e ai eu me redimiria. Houve. foi numa outra Feira do Livro de Lisboa. Ele estava na banca de autógrafos. Entrei na fila. Eu, de roupas comuns e despenteado, como geralmente me encontro em quase todas as situações, fui traído pela voz; enquanto ele entregava um exemplar assinado, eu disse, vim aqui só para apertar a sua mão e dizer que... não consegui terminar a frase. Ele, sem nem ao menos olhar para mim, empurrou bruscamente a minha mão e olhou para outro lado. Deixei assim mesmo. Bem feita! Saí vexado, com o rabinho entre as pernas.

Saiamos do entretanto. Continuamos a nos falar, não mais com fax, mas com telefone e correio eletrónico através das pessoas que o assessoravam ou diretamente pelo correio com que enviava para ele tudo que escrevia e... é o que já se sabe.  Certa vez ele manifestou o desejo de conhecer o Tejo bar e que iria fazê-lo quando voltasse a Lisboa. Fiquei estarrecido. Ele descobriria que eu era o mesmo gajo impertinente que tantas vezes o molestou. Como reagiria? Torci para que ele nunca fosse a Alfama ou que fosse quando lá eu não estivesse. Já achava piada a isso tudo. Não gostaria que se quebrasse o encanto. O que, por um triz, não aconteceu. Na Feira do Livro de Lisboa de 2005, o sítio onde estava com a minha banquinha autografando o “Was Bach Brazilian?” que ganhara o Prémio Fnac/Teorema e tinha sido publicado no ano anterior ficava a poucos metros de distância da banca de autógrafos do meu meio amigo. Uma brincadeira da turma envolvida no romance do Grande Gastão era pegar assinatura das personagens do romance e a minha filha Maiara foi pegar a do morador da República Independente de Vila Morena, na Rua Colibri, número único, pois é uma rua pequena que do outro lado tem um jardim em homenagem ao Agostinho da Silva, o precursor dessa república dos simples. Maiara foi tal pai. Só faltou saltar ao colo do homem. Foi com todos os meus livros na mão pedindo para assiná-los e dizendo que deveria lê-los e que eram bons não porque eram do meu pai mas... E o fotógrafo Salvo Parrinello a registar tudo. 


“Calma, minha filha!” Disse o escritor, tomando os livros e assinando-os um por um. “Eu já os li!”. À pala disso, vendi uns tantos exemplares para os fãs do escritor que viram a cena. E foi aí que, numa das pausas para descansar os dedos, ele se dirigiu para onde a Maiara abalou na carreira. Ao perceber que ele se aproximava, escondi-me atrás da carrocinha dos gelados e fiquei espreitando aquele homem alto de passos calmos e elegantes olhando ao redor da minha banquinha. Ele esperou um pouco e eu esperei ele deixar de esperar. Até hoje imagino o que seria se eu desse azo à minha vontade que era agarrar novamente a sua santa mão. Beijá-la. E, tal filha, dançar aos pulinhos em volta dele.

 

Rio Branco, 9 de setembro de 2020.

 

Dedicado a Sandro Silva e a Jaime Alves que boas histórias têm com o Escritor.


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