Eram
dois amigos. Velhos amigos velhos. Reformados. Que muito se gostavam, mas nunca
podiam estar juntos. Se matavam o tempo, lado a lado, era sempre em situaçõesque
a um deles desagradava e era rezinga na certa. Um gostava das coisas mórbidas,
de morte, de despedida. O outro gostava da alegria,das cheganças,das coisas da
vida. Por isso, estavam sempre separados. Se combinavam de irem dar uma volta
ao aeroporto, um ia para a Chegada das as boas vindas, desejar boa estada; o
outro, ia para a Partida e regalava-se de
dar tapinhas nas costas daqueles com quem metia conversa. Adeus, boa
viagem! No hospital, enquanto um ia para o berçário fazer caretas e ouvir a
música dos recém-nascidos, o outro ia para o silêncio da morgue. Igreja? Também um bom passatempo. Mas
um só ia a missa de ano, de sétimo dia ou corpo presente, o outro, para
batizados, casamentos, também festas para este; para aquele, só velório. Até o
jornal dividiam. Um só lia o obituário. Apenas em uma coisa os dois estavam de
acordo: era quando da morte de um deles. Quem haveria de ir primeiro. Nisto
sim, concordavam.
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Deveria
ir primeiro o que gostava das chegadas. Com certeza, teria alguém para
despedir-se dele e ele teria o prazer de receber o amigo, lá, do outro lado.
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