domingo, julho 14, 2024

Lia, a cegonha que gostava do frio



Era Lia, uma vez, uma cegonha que gostava do frio. E mais, detestava o calor. Que fazer? Era diferente. O calor fazia-lhe sofrer mais que a solidão sofrida por não ser igual às da sua espécie. Voava sempre mais alto a procurar as aragens frescas das alturas, onde planava por horas a fio e procurava sempre os sítios mais altos para  fazer o seu ninho. Quando chegava o Inverno, todas as cegonhas migravam para o Sul, menos Lia. Toda uma estação longe do escárnio que lhe atiravam pelo pecado de não ser igual. O crime da diferença. Todos os anos era assim. E Lia se cansou. Cansou-se e quando o Inverno chegou e todas migraram para Sul, Lia foi para o Norte. Cada vez mais para o frio e mais para longe das maledicências das comadres. O Norte. O frio. Que bom! Alto. Sobre as nuvens. A ponta metálica de uma torre se lhe apresentava como um bom local para fazer um ninho. Pousa. Os sons que lhe chegavam anunciavam-lhe que a vida seria dura. O nevoeiro dissipou-se. Que cidade grande! Difícil fazer o ninho. Difícil buscar comida. A solidão maior. Mas, foi a sua escolha.

 

E, hoje, a cidade de Paris tem uma nova atração. Se se olhar com muita atenção, pode-se ver uma cegonha em elegantes voos circulares ao redor da Torre Eiffel. Mas há que se olhar com muita atenção.

 

À Maiara Mariana

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