domingo, agosto 18, 2024

O desconfiado


Eram cara de um, focinho do outro. Retrato chapado. Tal e qual. Cuspido e escarrado ou, para ser um pouco esnobe e retomando à origem do dito popular, “esculpido em Carrara”. Se não fosse pela diferença de idades, daria para dizer que eram irmãos gêmeos. Era mesmo o caso de dizer, tal pai tal filho. O pai era a pessoa mais desconfiada que conheci na face da terra. Dava o bigode em São Tomé. Teve muitos problemas conjugais quando o menino nasceu. Ao crescer, pensávamos que as dúvidas se dissipariam, pois ainda muito novo já tinha os traços mais marcantes do pai. Hoje, com dezoito anos, é a despedida da vida civil, pois o jovem foi à sorte e não se safou e o quartel onde sentaria praça era longe de casa. Grande festa regada à boa aguardente. Lá pelas tantas, entre as conversas dos compadres, amigos e vizinhos, alguém remexeu na antiga ferida, com alguma alusão ao passado. Os que os conheciam melhor ficaram meio temerosos com a reacção que poderia ter uma brincadeira tão inoportuna. Mal estar geral. Silêncio absoluto. A resposta:

- Não sei, não. Eu tenho um sósia lá em Ribeirão Preto. O sujeito é a minha cara.


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