A aldeia
era tão pequena e tão tranquila que nem ao menos tinha um guarda noturno. Dois
dos seus habitantes trabalhavam à noite: um, o ferreiro, que adquiriu o hábito
noctívago desde o casamento com uma mulher bem mais jovem e muito bonita.
(Dizem as más línguas, que era para melhor garantir a fidelidade conjugal).
Trabalhava no fundo do quintal de uma casa afastada o tanto que não dava para
que o som da marreta na bigorna incomodasse o sono da aldeia; o outro, um
rapazote que compensava a falta de sono com a função de sineiro a marcar as
horas da madrugada já que as de até as dez da noite eram revezadas entre o
padre, o sacristão e, às vezes até por alguma beata ou um coroinha. Quando, por
um motivo ou outro, não podia exercer a função, o sino da igreja emudecia a
partir das vinte e duas e a aldeia ouvia apenas, muito ao longe, o martelar da
bigorna. Os dois a bater o metal noite dentro. Um, a marcar as horas; o outro,
os segundos. Os dois a trabalhar. Um a ouvir o outro. Os dois a cuidarem-se.
Como cuidavam-se nas missas dominicais quando, entre um bocejo e outro,
mantinham os olhos bem abertos.
O sino
não tocou. O sineiro fora visitar o primo, um rapaz que morava no campo, longe
de tudo. Quase um dia em lombo de burro. A viagem foi longa, mas a visita foi
rápida. Tinha apenas o objetivo de tentar convencer o priminho a vir à aleia,
coisa que nunca fizera.
- Não,
primo. Eu penso. – recusa com a calma inerente às pessoas do campo.
- Não é a
mesma coisa...
- Eu sei
como é a cidade. Eu sei como é a lua, o sol. Sei até como é o mar, que está
mais longe.
O sineiro
engenha um argumento convincente.
- E se
for para fazer um favor aqui pró primo?
- Deixa
eu pensar...
- Que
pensar, primo?! É coisa muito importante para mim. Tem a ver com o meu futuro.
Com o meu trabalho. Eu já fiz dezoito anos e...
- E que
favor é esse?
- Boa,
primo. Obrigado. Muito obrigado, mesmo. Eu sabia que você me ia ajudar.
- Alto,
lá!
- Por
quê? Está pensando em não me...
- Que
trabalho é esse que precisa minha ajuda?
- É que
estou querendo ser padre.
- E isso
é bom?
-
Ihhhhhhh!!!!! ...e dá dinheiro!
- E onde
é que eu entro?
- Sabe o
que é? É que eu preciso treinar. Baptizado, casamento, eu já ajudei. Sei como
é. Mas uma extrema-unção eu nunca vi. Sabe o que é extrema-unção? Vou-te
contar. São as confissões dos pecados feitas por quem está para morrer.
- E isso
é custoso?
- Se é!
às vezes é preciso o padre saber dar umas porradas pró filha da puta confessar.
- Sim...
Mas onde é que eu entro?
- Aí é
que está... Depois de amanhã, o padre vai dar a extrema-unção a um lavrador
abastado que mora longe da aldeia. Por isso o primo necessita que o primo vá
tocar o sino enquanto o primo vai com o padre aprender como se dá a
extrema-unção. E se o primo ganhar alguma coisa, o primo divide com o primo.
Concorda, primo?... Então?... Sempre me ajuda?
- Estou
pensando...
- Não!
- É que o
pai não empresta a mula para ir até a aldeia. Ele precisa dela para o arado.
- Eu
deixo o burro!
Quase que
seria mais uma noite sem o diálogo metálico, já que o sineiro passou a noite e
quase todo o dia para votar. Mas, mesmo muito cansado, anunciou-se, às horas
certas.
Vinte e
três horas e dezasseis minutos. Chegou o primo. Tudo às pressas. Faz assim.
Sobes ali. Cuidado para não caíres... Bates a meia-noite... Lá para uma já devo
estar de volta e tu vais descansar. Amanhã, o primo mostra a aldeia onde mora o
primo.
Cinco
minutos para a meia-noite. O rapaz pensa: “Meia-noite... Quantas badaladas
serão? O relógio mostra um doze. Mas doze é meio-dia. Maia-noite também se diz
zero hora. Mas se eu não der nenhuma badalada, como é que o povo vai saber que
horas são? Se eu der só um toquezinho,
pode confundir com o toque da uma... Vinte e quatro! É isso. Meia-noite é vinte
e quatro horas”.
Uma
badalada, duas badaladas...Cuidado para não cair. Três badaladas, quatro
badaladas... Não olhar para baixo. Cinco badaladas, seis badaladas... O toque
está diferente. Sete badaladas, oito badaladas... A música é outra. Nove
badaladas, dez badaladas... O pensamento pegou o rapaz de surpresa: “Como é que
o primo sabia que o lavrador ia morrer hoje??!!! Onze badaladas, doze, treze,
quatorze, quinze... O sineiro ficou maluco! Dezasseis, dezassete, dezoito,
dezenove, vinte. O padre, de camisolão branco, aparece, repentinamente, por
detrás do rapaz que, com o susto, despenhou-se no vão da torre ficando
pendurado na corda do badalo.
Na
história da aldeia, só por duas vezes tem o registo de toques a rebate. Uma, a
quando de um grande incêndio. Outra, que se deu há uns duzentos anos quando um
bando de salteadores invadiu e saqueou a aldeia e esta, apesar de mais antiga,
marcou mais a memória colectiva devido as atrocidades cometidas. Facto é que,
assim como o rapaz que ora se agitava a pensar em como livrar-se do abismo,
nunca tinha escutado o sino da igreja, nunca ninguém na aldeia ouvira um toque
a rebate. O que será? Inundação? Ciclones? Terramotos?
Há que
proteger as crianças. Corre-corre... É o final dos tempos! Dívidas perdoadas.
confissões de amores reprimidos. Desavenças esquecidas. Promessas feitas e
promessas reiteradas. Muita coisa inusitada. Mas, o caso que mais deu o que
falar, por muito tempo, foi o encontro do sineiro com o ferreiro. Um, saindo; o
outro, entrando. Os dois a correr. Um, com as calças na mão; o outro, com o
malho.
Se a
pessoa ouvinte ou leitora gostou dessa história, agradeça também ao Fernando
Vila que muito contribuiu.
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