domingo, agosto 04, 2024

O rapaz que pensava demais

 

A aldeia era tão pequena e tão tranquila que nem ao menos tinha um guarda noturno. Dois dos seus habitantes trabalhavam à noite: um, o ferreiro, que adquiriu o hábito noctívago desde o casamento com uma mulher bem mais jovem e muito bonita. (Dizem as más línguas, que era para melhor garantir a fidelidade conjugal). Trabalhava no fundo do quintal de uma casa afastada o tanto que não dava para que o som da marreta na bigorna incomodasse o sono da aldeia; o outro, um rapazote que compensava a falta de sono com a função de sineiro a marcar as horas da madrugada já que as de até as dez da noite eram revezadas entre o padre, o sacristão e, às vezes até por alguma beata ou um coroinha. Quando, por um motivo ou outro, não podia exercer a função, o sino da igreja emudecia a partir das vinte e duas e a aldeia ouvia apenas, muito ao longe, o martelar da bigorna. Os dois a bater o metal noite dentro. Um, a marcar as horas; o outro, os segundos. Os dois a trabalhar. Um a ouvir o outro. Os dois a cuidarem-se. Como cuidavam-se nas missas dominicais quando, entre um bocejo e outro, mantinham os olhos bem abertos.

O sino não tocou. O sineiro fora visitar o primo, um rapaz que morava no campo, longe de tudo. Quase um dia em lombo de burro. A viagem foi longa, mas a visita foi rápida. Tinha apenas o objetivo de tentar convencer o priminho a vir à aleia, coisa que nunca fizera.

- Não, primo. Eu penso. – recusa com a calma inerente às pessoas do campo.

- Não é a mesma coisa...

- Eu sei como é a cidade. Eu sei como é a lua, o sol. Sei até como é o mar, que está mais longe.

O sineiro engenha um argumento convincente.

- E se for para fazer um favor aqui pró primo?

- Deixa eu pensar...

- Que pensar, primo?! É coisa muito importante para mim. Tem a ver com o meu futuro. Com o meu trabalho. Eu já fiz dezoito anos e...

- E que favor é esse?

- Boa, primo. Obrigado. Muito obrigado, mesmo. Eu sabia que você me ia ajudar.

- Alto, lá!

- Por quê? Está pensando em não me...

- Que trabalho é esse que precisa minha ajuda?

- É que estou querendo ser padre.

- E isso é bom?

- Ihhhhhhh!!!!!  ...e dá dinheiro!

- E onde é que eu entro?

- Sabe o que é? É que eu preciso treinar. Baptizado, casamento, eu já ajudei. Sei como é. Mas uma extrema-unção eu nunca vi. Sabe o que é extrema-unção? Vou-te contar. São as confissões dos pecados feitas por quem está para morrer.

- E isso é custoso?

- Se é! às vezes é preciso o padre saber dar umas porradas pró filha da puta confessar.

- Sim... Mas onde é que eu entro?

- Aí é que está... Depois de amanhã, o padre vai dar a extrema-unção a um lavrador abastado que mora longe da aldeia. Por isso o primo necessita que o primo vá tocar o sino enquanto o primo vai com o padre aprender como se dá a extrema-unção. E se o primo ganhar alguma coisa, o primo divide com o primo. Concorda, primo?... Então?... Sempre me ajuda?

- Estou pensando...

- Não!

- É que o pai não empresta a mula para ir até a aldeia. Ele precisa dela para o arado.

- Eu deixo o burro!

Quase que seria mais uma noite sem o diálogo metálico, já que o sineiro passou a noite e quase todo o dia para votar. Mas, mesmo muito cansado, anunciou-se, às horas certas.

Vinte e três horas e dezasseis minutos. Chegou o primo. Tudo às pressas. Faz assim. Sobes ali. Cuidado para não caíres... Bates a meia-noite... Lá para uma já devo estar de volta e tu vais descansar. Amanhã, o primo mostra a aldeia onde mora o primo.

Cinco minutos para a meia-noite. O rapaz pensa: “Meia-noite... Quantas badaladas serão? O relógio mostra um doze. Mas doze é meio-dia. Maia-noite também se diz zero hora. Mas se eu não der nenhuma badalada, como é que o povo vai saber que horas são?  Se eu der só um toquezinho, pode confundir com o toque da uma... Vinte e quatro! É isso. Meia-noite é vinte e quatro horas”.

Uma badalada, duas badaladas...Cuidado para não cair. Três badaladas, quatro badaladas... Não olhar para baixo. Cinco badaladas, seis badaladas... O toque está diferente. Sete badaladas, oito badaladas... A música é outra. Nove badaladas, dez badaladas... O pensamento pegou o rapaz de surpresa: “Como é que o primo sabia que o lavrador ia morrer hoje??!!! Onze badaladas, doze, treze, quatorze, quinze... O sineiro ficou maluco! Dezasseis, dezassete, dezoito, dezenove, vinte. O padre, de camisolão branco, aparece, repentinamente, por detrás do rapaz que, com o susto, despenhou-se no vão da torre ficando pendurado na corda do badalo.

Na história da aldeia, só por duas vezes tem o registo de toques a rebate. Uma, a quando de um grande incêndio. Outra, que se deu há uns duzentos anos quando um bando de salteadores invadiu e saqueou a aldeia e esta, apesar de mais antiga, marcou mais a memória colectiva devido as atrocidades cometidas. Facto é que, assim como o rapaz que ora se agitava a pensar em como livrar-se do abismo, nunca tinha escutado o sino da igreja, nunca ninguém na aldeia ouvira um toque a rebate. O que será? Inundação? Ciclones? Terramotos?

Há que proteger as crianças. Corre-corre... É o final dos tempos! Dívidas perdoadas. confissões de amores reprimidos. Desavenças esquecidas. Promessas feitas e promessas reiteradas. Muita coisa inusitada. Mas, o caso que mais deu o que falar, por muito tempo, foi o encontro do sineiro com o ferreiro. Um, saindo; o outro, entrando. Os dois a correr. Um, com as calças na mão; o outro, com o malho.

 

Se a pessoa ouvinte ou leitora gostou dessa história, agradeça também ao Fernando Vila que muito contribuiu.


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