segunda-feira, setembro 02, 2024

Senhor Arlindo, o engraxador

 


O  senhor Arlindo trabalha todos os dias. Quando o restaurante A Mourisca, a esquina da Fontes Pereira de Melo com a Andrade Corvo, está fechado, ele muda o ponto para o Forno e Fogão, restaurante mais próximo. Pela  manhã, bem cedo, lá está ele com seu fato-macaco azul escuro,impecavelmente limpo e engomado, à espera dos primeiros clientes. Bancários, empregados do comércio, vendedores, escriturários e pessoas a procura de emprego. Estava eu a observar sua cabeça branca ao rés das mesas que alternava agilmente quando,como que por pressentimento, seus olhos se erguem para a porta de entrada onde um homem de meia idade, elegantemente vestido, com ar tranquilo de executivo bem sucedido, que contrastava com a maioria dos que ali estavam, parado, a olhar carinhosamente para o senhor Arlindo que ao vê-lo, esgueira-se por entre os clientes. Abraçam-se carinhosamente, trocam beijos e algumas palavras e despedem-se com mais beijos. O empregado de mesa,ao perceber que eu os observava com curiosidade, diz-me e tom baixo:

- É seu filho.

- E fazia muito tempo que eles não se viam? – perguntei como que a perceber a razão de tanto carinho.

- Não. Isso é todo dia.


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